Edição 2024

Estudos Especiais

(Des)Industrialização: Quais são os desafios da indústria Gaúcha?

A desindustrialização, entendida como o declínio da importância do setor industrial em uma economia, é um processo natural no desenvolvimento econômico de países desenvolvidos. O problema reside na ocorrência deste fenômeno de forma precoce em economias que ainda não alcançaram a maturidade do setor industrial. Além disso, se esse processo ainda estiver associado à uma baixa produtividade neste setor, poderá causar desemprego e redução da renda. Já há um certo consenso acerca da ocorrência da desindustrialização no Brasil, caracterizada pela queda do PIB industrial no PIB total, estimulando a permanência deste tema na pauta de discussão de entidades de classe empresariais desde a década de 1990.

No mundo, observa-se uma certa estabilidade da participação da indústria na composição do PIB desde o início deste século – houve, inclusive, um suave aumento de 1,1 ponto percentual, entre 2002 e 2022. No Brasil, ao contrário, o comportamento deste indicador foi semelhante ao mundial somente até o ano de 2010, logo após a crise do subprime. Contudo, a partir daquele ano, o Brasil apresentou uma queda significativa até 2017 – entre 2011 e 2017, a participação da indústria no PIB brasileiro passou de 23,1% para apenas 18,2%. A partir de 2018, a indústria brasileira retomou, em parte, o seu protagonismo na economia brasileira (Gráfico 1).

Gráfico 1 – Participação da indústria (incluindo construção), valor adicionado, no PIB (%) Mundo e Brasil – 2002-2022

Fonte: Banco Mundial (2024). Elaboração própria.

Esse processo de desindustrialização da economia brasileira, que não se enquadraria como uma economia desenvolvida, poderia ser explicado por uma série de razões, tais como a adoção de políticas econômicas e comerciais inadequadas e a insuficiência de investimentos em infraestrutura, em pesquisa e desenvolvimento etc. O setor industrial, especialmente naqueles subsetores de maior intensidade tecnológica, caracteriza-se por gerar mais empregos, inovação e crescimento do que os demais setores da economia. Assim, é preocupante a possível presença deste processo na economia brasileira. Além disso, a maior abertura da economia, como ocorreu no Brasil a partir da década de 1990, aumenta a concorrência global e pode também impactar na desindustrialização e na redução de empregos na indústria manufatureira – neste caso, principalmente, de

trabalhadores que são menos qualificados. Por outro lado, também é importante citar os efeitos do boom da exportação de commodities no Brasil no século atual, que geraram a apreciação da moeda, tornaram os produtos importados mais acessíveis, reduziram o consumo de produtos nacionais – desestimulando a produção e o investimento – e contribuíram para a perda de competitividade da indústria nacional.

Participação da Indústria de Transformação no PIB do Rio Grande do Sul

No que tange às economias regionais, é possível verificar se este fenômeno da desindustrialização brasileira se alastrou para os demais entes federativos e qual foi o seu padrão no setor industrial. Em relação ao Rio Grande do Sul, este estudo analisa a evolução da participação da indústria na economia gaúcha nos últimos 20 anos. Utiliza-se a definição de desindustrialização mensurada pelo valor adicionado da indústria de transformação como proporção do PIB a preços correntes, ambos provenientes do Sistema de Contas Regionais do Brasil (IBGE). O grau de industrialização é um indicador simples, mas importante, que sinaliza a presença da desindustrialização em uma economia. À medida que uma economia se industrializa, este indicador aumenta, pois a indústria de transformação cresce a uma taxa superior à do restante da economia, aumentando a sua contribuição na geração de riqueza.

No Gráfico 2 é possível analisar a evolução da participação da indústria de transformação (Valor Adicionado Bruto da Indústria de Transformação) no PIB do estado. Nota-se que o peso da indústria tem diminuído desde 2004. Quando se analisa mais detidamente o período, vê-se que, em 2002, a indústria de transformação gaúcha representava 16,0% do PIB estadual e, no final de 2019, detinha 13,7% de representatividade na economia do Rio Grande do Sul, momento a partir do qual a indústria começa a dar sinais de retomada de maior participação na economia do estado.

Gráfico 2 – Participação da indústria de transformação no PIB (%) Brasil e Rio Grande do Sul – 2002-2021

Fonte: Sistema de Contas Regionais do Brasil (IBGE) (2024). Elaboração própria.

No que se refere à comparabilidade com a indústria de transformação brasileira, é possível perceber que a indústria gaúcha seguiu o mesmo padrão de declínio do setor industrial nacional, com expressiva diferença na magnitude da participação. Enquanto a indústria de transformação no Brasil teve seu vale em 2019, representando 10,3% do PIB, para o Rio Grande do Sul, no mesmo ano, esse valor foi de 13,7% do PIB do estado.

Uma possível explicação para as trajetórias descendentes das indústrias de transformação no Brasil e no Rio Grande do Sul, até 2019, estão associadas ao fato de que o setor industrial brasileiro e, consequentemente, o gaúcho, respondem aos momentos de recessão ou crise externa conjuntamente, além de produzir bens com maior elasticidade em relação à renda. Assim, nas fases de prosperidade econômica, o setor industrial tende a aumentar sua participação na economia, ocorrendo o oposto nos períodos de estagnação ou recessão.

Empresas e Empregos na Indústria de Transformação no Rio Grande do Sul

Uma das avaliações complementares, necessárias para uma melhor qualificação dos argumentos relacionados às mudanças na importância relativa da indústria na economia, se baseia no desempenho do emprego industrial. Ao analisar os dados da Pesquisa Industrial Anual – Empresa (PIA-Empresa), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para o Rio Grande do Sul, é possível perceber um crescimento moderado no emprego na indústria de transformação no período de 2007 a 2021 – o crescimento verificado no volume de empregos gerados pela indústria no período foi de 3,5%, saindo de 638.596 pessoas ocupadas, em 2007, para 660.947 em 2021. Contudo, entre 2013 e 2020, a trajetória foi de queda, como é possível observar no Gráfico 3. O mesmo comportamento pode ser verificado na análise dos dados de número de empresas no período do estudo: houve um crescimento de 10,91%. No ano de 2021, o estado do Rio Grande do Sul somou um total de 18.532 empresas, patamar próximo ao registrado em 2010 (18.921), entretanto, distante do pico registrado em 2014 (21.492) No período de 2014 a 2020 houve também redução no número de empresas (Gráfico 3).

Gráfico 3 – Número de empresas e de pessoal ocupado da indústria de transformação no Rio Grande do Sul – 2007-2021

Fonte: PIA-Empresa (IBGE) (2024). Elaboração própria.

Adicionalmente, os setores que apresentaram as maiores variações negativas no número de empresas e de empregos no período são apresentados na Tabela 1.

Setores20072021Variação (%)
Empresas
Fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos5436-33,3
Preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados2.4831.812-27,0
Impressão e reprodução de gravações477411-13,8
Fabricação de móveis1.4861.436-3,4
Metalurgia201196-2,5
Empregos
Impressão e reprodução de gravações8.2605.042-39,0
Preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados143.91295.745-33,5
Metalurgia14.0479.707-30,9
Confecção de artigos do vestuário e acessórios22.22718.624-16,2
Fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos2.3732.039-14,1
Fonte: PIA-Empresa (IBGE) (2024). Elaboração própria.
Nota: Também é pertinente a análise a partir da diferenciação do porte empresarial. No entanto, a PIA-Empresa/IBGE não apresenta segmentação do número de empresas por faixa de pessoal ocupado (porte) para as unidades federadas, limitando a disponibilidade dessa informação apenas a nível nacional e grandes regiões geográficas.

A evolução da representatividade da indústria de transformação em relação ao emprego total no Rio Grande do Sul é apresentada no Gráfico 4. Devido à PIA-Empresa (IBGE) ser uma pesquisa voltada apenas para o setor industrial, não apresentando informação similar para o restante da economia, a comparação com o emprego total fica prejudicada. [KD1] [GR2] O indicador de participação da indústria de transformação no emprego total do estado é feito, portanto, através dos dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), no período de 2010 a 2021. A RAIS compreende registros administrativos de empregadores sobre empregados, considerando apenas o emprego formal celetista.

Entre 2010 e 2019, a participação da indústria de transformação no emprego total do Rio Grande do Sul passou de 24,7% para 21,1%. A recuperação ocorreu nos dois últimos anos da série, chegando a 22,2% em 2021.

Gráfico 4 – Participação da indústria de transformação no emprego formal total do Rio Grande do Sul – 2010-2021

Fonte: Departamento de Economia e Estatística (DEE) da Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão do Governo do Estado do Rio Grande do Sul (2024). Elaboração própria.

Partindo-se desse cenário, levanta-se a pauta sobre o desafio que o setor industrial gaúcho tem diante dos efeitos das enchentes ocorridas no estado em setembro de 2023 e a partir do final de abril de 2024. Como mostrado no panorama anterior, a indústria gaúcha começava a dar sinais de recuperação no crescimento após um longo período de queda (Gráfico 2). No entanto, há o choque associado às enchentes ocorridas no período recente, que pode retardar uma possível retomada do crescimento industrial gaúcho. A Tabela 2 apresenta, por Regiões Funcionais de Planejamento (RFs)[i] do estado, a participação do VAB industrial da região em relação ao VAB industrial total do estado. É possível perceber que as regiões RF1, RF2, RF3 e RF9 concentram a maior parte do VAB da indústria no Rio Grande do Sul, aproximadamente 79% do VAB industrial do estado. Também é possível observar o número de município afetados, declarados em calamidade e em emergência, em cada RF. As regiões mais afetadas, em termos de quantidade de municípios citados no Decreto 57.646, de 30 de maio de 2024, são justamente as regiões RF1, RF2, RF3, além da RF8. Verifica-se, portanto, que as regiões com maior participação no VAB industrial são as que apresentam maior número de municípios afetados, ou seja, as enchentes podem prejudicar muito a indústria do Rio Grande do Sul.

Tabela 2 – Municípios afetados pelas enchentes, por RFs, participação no VAB industrial e variação do número de empresas e de pessoal ocupado, na indústria de transformação, no Rio Grande do Sul – 2010/2021
RFsNúmero de municípiosVAB industrial da RF
(% no VAB industrial do estado)2021
Decreto 57.646
30 de maio de 2024
Empresas na indústria de transformação nos municípios afetadosEmpregos na indústria de transformação nos municípios afetados
Em calamidadeEm emergênciaMunicípios afetados
(% na RF)
20102021Variação (%)20102021Variação (%)
RF17043,1274095,714.09711.452-18,8303.374253.972-16,3
RF2597,83524100,02.9243.1588,063.64471.99513,1
RF34919,183587,88.0867.522-7,0172.892158.441-8,4
RF4211,21738,11011010,01.0021.12111,9
RF5225,641377,31.032917-11,117.69216.463-6,9
RF6204,31575,0586572-2,49.0789.5555,3
RF7776,05976,61.2401.38912,018.73224.38730,2
RF8495,1153091,81.4881.381-7,219.68124.78225,9
RF91307,9510080,82.9733.41815,046.98454.67316,4
Total4971009532384,1*32.52729.910-8,0653.079615.389-5,8

Fonte: Governo do Estado do Rio Grande do Sul (2024) e RAIS (MTE) (2024). Elaboração própria. Nota: (*) Dos 497 municípios do estado, apenas 79 não foram afetados diretamente, isto é, nem calamidade, nem emergência.

Ao analisar a evolução do número de empresas e de pessoal ocupado, na indústria de transformação, observa-se que a RF1, formada pelos COREDES Metropolitano do Delta do Jacuí, Centro Sul, Vale do Caí, Vale do Rio dos Sinos e Paranhana-Encosta da Serra, teve uma queda de 18,8% e de 16,3%, respectivamente, no período de estudo. Essa região foi responsável, em 2021, por 43,1% do VAB industrial, 38,3% das empresas e 41,3% dos empregos no estado. Assim, além da trajetória de redução de empresas e de empregos na indústria de transformação, entre 2010 e 2021, 95,7% dos municípios que integram a RF1 foram afetados pelas enchentes recentes. Ao incluir a RF3, que corresponde aos COREDES Campos de Cima da Serra, Hortênsias e Serra, nesta análise, ambas as RFs totalizaram 62,2% do VAB industrial do estado em 2021. Além disso, elas representaram 63,4% e 67,0%, respectivamente, das empresas e dos empregos no Rio Grande do Sul neste mesmo ano. A RF3, de forma

semelhante à RF1, também apresentou redução de 7,0% e de 8,4%, respectivamente, no número de empresas e de pessoal ocupado na indústria de transformação entre 2010 e 2021.

Diante desse panorama da trajetória da indústria gaúcha nos últimos 11 anos, além das consequências econômicas das enchentes no estado no período recente, é fundamental uma agenda de promoção do desenvolvimento industrial do Rio Grande do Sul. O foco deveria ser na promoção da inovação, na qualificação da mão de obra e na maior competitividade da indústria gaúcha no cenário nacional e internacional.


Notas de Rodapé

[i] Em 2003, com a elaboração do Estudo de Desenvolvimento Regional e Logística para o Rio Grande do Sul (Rumos 2015), foi proposta a criação de Regiões Funcionais de Planejamento por meio do agrupamento de Conselhos Regionais de Desenvolvimento (COREDES). A partir de uma escala mais agregada, seria possível reunir a preocupação comum dos COREDES e municípios com homogeneidade e pertinência a áreas com dinâmicas esperadas similares, visando facilitar e direcionar ações pautadas por aspectos estratégicos. A seguir, são descritos os COREDES que integram cada RF:

  • RF1: Metropolitano do Delta do Jacuí, Centro Sul, Vale do Caí, Vale do Rio dos Sinos e Paranhana-Encosta da Serra
  • RF2: Vale do Rio Pardo e Vale do Taquari
  • RF3: Campos de Cima da Serra, Hortênsias e Serra
  • RF4: Litoral Norte
  • RF5: Sul
  • RF6: Campanha e Fronteira Oeste
  • RF7: Fronteira Noroeste, Missões, Noroeste Colonial e Celeiro
  • RF8: Alto Jacuí, Central, Jacuí-Centro e Vale do Jaguari RF9: Alto da Serra do Botucaraí, Médio Alto Uruguai, Nordeste, Norte, Produção e Rio da Várzea

Observatório da Indústria do Rio Grande do Sul

Contatos: (51) 99333 6934 l observatoriodaindustriars@fiergs.org,br

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